Resenha: Facebook para os pacientes

Livro traça estratégias de como usar as redes sociais para melhorar a saúde dos pacientes

Por Mara Rocha  | Fonte: Revista Diagnóstico

As instituições de saúde parecem não ter aprendido a utilizar corretamente as redes sociais, é o que dizem especialistas. Passadas quase duas décadas desde o início da popularização da internet, muitas são as organizações do setor que ainda não aderiram às novas tecnologias, ou que estão presentes nos canais online de forma inexpressiva, sem explorar corretamente todas as possibilidades oferecidas nesses ambientes. Pensando nisso, uma das mais famosas e antigas organizações de saúde dos Estados Unidos, a centenária Mayo Clinic, publicou o livro Bringing the Social Media Revolution to Health Care (Trazendo a Revolução das Mídias Sociais para a Saúde – ainda inédito no Brasil). Uma espécie de guia para empresas e profissionais de saúde, a publicação reúne relatos de cerca 30 colaboradores da Mayo que, estimulados pelo Centro de Mídia Social da entidade norte-americana, experimentaram ao longo de sete anos o contato direto com pacientes e pares através da web.

“Não é sobre vantagem competitiva”, antecipa na apresentação do livro o presidente da Mayo, John Noseworthy, em recado para quem espera encontrar lições de marketing na publicação. “É sobre pacientes e como essas ferramentas online podem beneficiá-los, trabalhando para melhorar a saúde deles”, esclarece o gestor de uma das maiores organizações sem fins lucrativos da saúde estadunidense, que agrega hospitais e centros acadêmicos distribuídos pelo país. Ele classifica as redes sociais como revolucionárias, por favorecerem o combate a doenças e melhoria da qualidade dos atendimentos. “Se bem aproveitadas, essas mídias podem ajudar a aperfeiçoar os cuidados em saúde, a catalisar pesquisas, a fortalecer a educação médica e a promover o contínuo desenvolvimento profissional”, explica. Assim, a obra parte do pressuposto que o atendimento em saúde tem exigido cada vez mais o engajamento tanto dos profissionais da área, quanto de seus pacientes. Seja na escolha da terapia ou em campanhas de prevenção contra doenças, esse comprometimento mútuo tem impactado positivamente nos resultados. “As redes sociais estão ajudando a reforçar esse engajamento”, garante a publicação.

 

Em formato de coletânea de textos, médicos e gestores da Mayo compartilharam perspectivas e experiências vividas no Facebook, Twitter, LinkedIn, blogs e Youtube ao longo de sete anos. São conselhos direcionados tanto para a construção de perfis pessoais de quem atua no setor, quanto das empresas, com orientação jurídica e de especialistas da comunicação sobre como se comportar na internet. O trabalho teve início em 2005, ano em que o Centro de Mídia Social do hospital, de forma pioneira no segmento, passou a investir em ferramentas web para estreitar relacionamento com os pacientes e agentes de saúde. “Temos desenvolvido com afinco ações nas redes sociais, e esperamos que outros hospitais possam aprender com as nossas descobertas”, conta o livro.

 

E de pioneirismo a Mayo Clinic entende. A estrutura, fundada em 1910 pelos médicos e irmãos Mayo, em Rochester, Minesota, foi o primeiro grupo integrado de medicina dos EUA. Na época, acreditava-se que a saúde de um paciente deveria ser responsabilidade de um único profissional e não de uma equipe de especialistas, como defendiam os fundadores da instituição. “Eles foram chamados de radicais”, relata Noseworthy no livro. “Eram visionários e isso está no espírito da Mayo, que agora aposta nas redes sociais para revolucionar a prática médica”, sentencia. Quase cem anos após a sua fundação, a entidade coleciona prêmios. O último foi atribuído justamente ao hospital de Rochester, eleito o melhor do país no ranking de 2014-2015 pelo U.S. News & World Report, um dos mais importantes reconhecimentos do setor.

 

Planejamento – A primeira lição ensinada em Bringing the Social… é que, para ser eficaz na abordagem online, é necessário conhecimento das ferramentas web. “Antes de interagir, crie intimidade com as plataformas e observe como as pessoas e empresas se comportam”, diz o texto, reforçando a necessidade de definição de um plano estratégico, com objetivos de atuação bem estabelecidos. “Planejamento não serve só para as páginas web empresariais”, destaca a publicação, que ressalta a importância de evitar assuntos pessoais quando o foco do perfil for profissional. Essa primeira etapa também será importante para despertar o interesse do próprio usuário em atuar nas redes sociais. “A participação nessas mídias é voluntária e precisa de paixão para ter sucesso, algo que só surge com o pleno conhecimento do processo”, pontua.

 

A fase de observação será fundamental para compreender qual é a linguagem mais adequada a cada meio e o que de fato tem relevância para os demais internautas. “Porque às vezes o que consideramos interessante pode ser bem chato para os outros”, sinaliza. Nesse contexto, é importante analisar, por exemplo, o comportamento dos perfis mais populares no Twitter. Vale também a busca nos grupos do Facebook dos internautas com interesses profissionais ou conhecimento em comum. Eles são seguidores em potencial e, em alguns casos, colegas com quem trocar experiências. Seguindo esse passo-a-passo, a médica Patricia Anderson obteve alguns benefícios. 

 

“Encontrei pesquisadores com quem assinar artigos científicos, recebi convites para apresentações em seminários e passei a integrar comissões como membro conselheiro”, afirma ela no livro. No LinkedIn, através de perfil profissional e da company page, é possível estabelecer um rico networking, com engajamento dos colaboradores em grupos de discussão em temas referentes à própria especialidade. “A participação constante e estratégica no LinkedIn vai permitir que a organização apareça listada em posts sobre iniciativas e alcances, sendo citada como referência”. Essa relação também pode ser reforçada com videos-aula compartilhadas no Youtube.

 

Quanto à interação com pacientes e seus familiares, o Centro de Mídia Social da Mayo encoraja seus colaboradores a responderem rapidamente a perguntas e dúvidas sobre patologias e possibilidades de tratamento em linguagem acessível nas redes. “Diante da difusão de informações não confiáveis na web, o contato direto com o médico evita a confusão do enfermo, já fragilizado pela doença”, justifica o livro. “Desesperado, ele pode não ter conseguido te achar no celular ou no contato disponível no site da instituição. Então, responda”, aconselha.

 

As instituições também podem ajudar, através da criação de blogs com atualização constante sobre temas de interesse e comunidades no Facebook voltadas para a participação dos pacientes. “Eles terão a segurança de que nesses canais encontrarão informação confiável”. Mas todo o procedimento precisa ter respaldo jurídico. Por isso, o livro recomenda a confecção de um manual de comportamento, a ser distribuído entre os funcionários da instituição. “O site e as redes sociais vinculadas ao hospital são como a recepção de uma empresa e precisam condizer com os preceitos da mesma”, lembra.

 

Bringing the Social Media Revolution to Health Care é interessante, por ser construído com base em evidências. O formato de coletânea de relatos, embora favoreça em alguns textos a repetição de ideias, permite uma leitura dinâmica e nada exaustiva. Qualidade essa reforçada pela linguagem de fácil compreensão para profissionais de qualquer segmento da saúde, inclusive sem experiência nas redes sociais. Sem dúvida, é uma leitura imprescindível para quem deseja entrar de forma estratégica ou rever o próprio posicionamento na web.